Uma nova espécie de microrganismo foi descoberta na fissura de um vulcão ativo na Antártica, por equipe de pesquisa do IO-USP (Instituto de Oceanografia da Universidade de São Paulo).
A descoberta de um novo tipo de arqueia, um ser unicelular similar a uma bactéria, poderá auxiliar no estudo sobre a adaptação da vida em condições extremas, além de saber quais são os limites em que organismos conseguem sobreviver.
A professora do IO-USP que liderou a expedição, Amanda Bendia, relata à CNN Brasil que essa arqueia que vive próximo de 100 Cº será: “importante para a ciência brasileira porque amplia nosso entendimento sobre os limites da vida em ambientes extremos”.
As pesquisadoras Ana Carolina Butarelli e a Francielli Vilela Peres, também fizeram parte do estudo.
A informação será utilizada como referência em estudos de astrobiologia sobre a possibilidade da vida fora da Terra, em ambientes extremos e com características semelhantes.
As arqueias, que pertencem aos seres vivos mais primitivos do planeta, foram encontradas, até então, apenas no oceano profundo. Agora é a primeira vez que o microrganismo é registrado na superfície de um ambiente polar.
A arqueia é conhecida por viver em ambientes extremos há bilhões de anos. Ao invés de depender de luz solar, eles produzem energia a partir de substâncias químicas presentes no ambiente em que estão.
Imagens de uma fumarola de um vulcão antártico ativo;
Mesmo assim, a microbiologista confessa que a pesquisa de campo revelou um cenário inesperado: “Eu imaginava que coletaria vários pontos em um gradiente contínuo de temperatura. Mas como a temperatura do ar é muito fria, em cima da fumarola fica 100 graus, e poucos centímetros ao lado já está tudo muito gelado, porque a perda de calor é muito rápida.”
Ver mulheres brasileiras liderando pesquisas nesse cenário representa mais do que avanço científico: é a prova de que a ciência feita no Brasil também produz conhecimento de ponta em ambientes extremos e estratégicos para o futuro do planeta
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As pesquisadoras coletaram o material em fumarolas, aberturas no solo por onde saem gases quentes de origem vulcânica.
Desta amostra, a equipe extraiu o DNA, utilizando ferramentas de análise genética para reconstruir o genoma do microrganismo e identificar quais características dele estão ligadas ao modo de sobrevivência em ambientes com altas temperaturas e presença de gases tóxicos.
As coletas foram realizadas em pontos com temperatura entre 100 °C, 50 °C e 0 °C, fator que permitiu comparar os microrganismos em diferentes condições. A líder da pesquisa relatou que a nova espécie só foi encontrada na região mais quente e de maneira pontual.
“Esse trabalho tem um significado muito especial para nós: foi um estudo realizado integralmente por mulheres cientistas brasileiras, mostrando a força da ciência produzida no país e a importância da representatividade feminina em áreas de pesquisa de fronteira”, complementa Amanda Bendia, líder da expedição.
A nova espécie foi nomeada como Pyroantarcticum pellizari, em homenagem à microbiologista Vivian Pellizari, uma das primeiras no Brasil em produzir estudos de microrganismos que vivem em condições extremas.
*Sob supervisão de Thiago Félix
